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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dois poemas de Umberto Saba

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CONFINE

Parla a lungo con me la mia compagna
di cose tristi, gravi, che sul cuore
pesano come una pietra; viluppo
di mali inestricabile, che alcuna
mano, e la mia, non può sciogliere.
Un passero
della casa di faccia sulla gronda
posa un attimo, al sol brilla, ritorna
al cielo azzurro che gli è sopra.
O lui
tra i beati beato! Ha l'ali, ignora
la mia pena segreta, il mio dolore
d'uomo giunto a un confine: alla certezza
di non poter soccorrere chi s'ama.

Umberto Saba

FRONTEIRA

Fala e fala comigo a minha companheira
de coisas tristes, graves, que no coração
pesam como uma pedra: um esgar
de dores inexplicáveis, que nenhuma
mão, nem a minha, pode apagar.
Um pardal
no beiral da casa defronte
poisa um momento, brilha ao sol e volta
ao céu azul, bem lá no alto.
Ele é
abençoado entre os abençoados! Tem as asas e ignora
a minha pena secreta, a minha dor
dum homem junto a uma fronteira: a certeza
de não poder socorrer quem se ama.

(tradução de Rafael Martins)

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PORTO

Qui dove imberbi scritturali il peso
registravano, e curvi sotto il carico
in fila indiana sudati braccianti
salivano scendevano oscillanti
scale dai moli agli alti bordi, preso
tra bestemmie e muggiti, della vita
solo un pensiero a me era nocente.

Cercavo a quello un angolo ridente.
Molti, all'ombra di pergole, ne aveva
la mia città inquieta. Mi premeva
isolarmi con lui, mettere assieme
versi, cavare dal suo male un bene.

Spero ancora un rifugio allo stratempo.
Ecco: è stato un miracolo trovarlo.
Tutto, se chiedo, posso avere, fuori
quel mio cuore, quell'aria mia e quel tempo

Umberto Saba

PORTO

Aqui, onde o imberbe escrivão o peso
registava, e dobrados sobre a carga
em fila indiana, os trabalhadores, suados
desciam, balouçantes
as escadas das docas, para o barco, presos
entre blasfémias e gritos, de toda a vida,
só um pensamento me era inocente.

Tentava encontrar um ângulo feliz.
Muitos, na sombra da pérgola, não tinham
a minha cidade, inquieta. Queria
isolar-me com ele, juntar
versos, obter do seu mal um bem.

Ainda espero um refúgio da tempestade.
Ei-lo: foi um milagre encontrá-lo.
Tudo, se pedir, posso ter, menos
Aquele meu coração, aquele meu ar e aquele meu tempo.

(tradução de Rafael Martins)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Minha Homenagem a Nelson Mandela


INVICTUS

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

(Da noite que me cobre,
Negra como um poço de alto abaixo,
Agradeço quaisquer Deuses que existam
Pela minha alma inconquistável.

Na garra cruel da circunstância
Eu não recuei nem gritei.
Sob os golpes do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas erecta.

Além deste lugar de fúria e lágrimas
Só o eminente horror matizado,
E contudo a ameaça dos anos
Encontra e encontrar-me-á, sem temor.

Não importa a estreiteza do portão,
Quão cheio de castigos o pergaminho,
Sou o dono do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.)

Tradução de Luis Eusébio

domingo, 14 de março de 2010

«Ciganos Em Viagem»

ciganos


A tribo que prevê a sina dos viventes
Levantou arraiais hoje de madrugada;
Nos carros, as mulher', c'o a torva filharada
Às costas ou sugando os mamilos pendentes;


Ao lado dos carrões, na pedregosa estrada,
Vão os homens a pé, com armas reluzentes,
Erguendo para o céu uns olhos indolentes
Onde já fulgurou muita ilusão amada.


Na buraca onde está encurralado, o grilo,
Quando os sente passar, redobra o meigo trilo;
Cibela, com amor, traja um verde mais puro,


Faz da rocha um caudal, e um vergel do deserto,
Para assim receber esses p'ra quem 'stá aberto
O império familiar das trevas do futuro!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

Tradução de Delfim Guimarães

domingo, 14 de fevereiro de 2010

...because she knows! (II)



Soneto inglês

Como o silêncio do punhal num peito,
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer,

Vive em mim o teu nome, tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito;
É a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte;
Procurar noutros olhos a medida,
Vencer o tempo, dominar a sorte,

Atraiçoar a morte com a vida!
Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...


Alexandre O´Neill
Poesias Completas