Estávamos no ano de 1992 e o Reino Unido atravessava uma fase menos boa, monarquicamente falando.
A Raínha Isabel II (ou Queen Elizabeth II, para os puristas da língua de Shakespeare, que gostam de ler o meu blogue comendo uns «scones» e bebendo o «five o'clock tea») passava as «passinhas do Algarve» (ou será «ALLgarve?), vendo os seus filhos a divorciarem-se das respectivas. Como se isso não bastasse, por alturas do Natal viu o seu «modesto» castelinho de Windsor pegar fogo! E foi por isso tudo que ela apelidou 1992 como o «anno horribilis» do seu reinado.
De então para cá, muita água passou por debaixo das pontes e uns anos foram melhores, outros nem tanto.
E foi então que chegámos a Portugal. O ano era 2008. E 2009, porque eles andam sempre a pares.
2008-2009 foi o «annus horribilis» da Educação. Não só para a Educação, é um facto, mas para muitos e diversos aspectos do nosso país. E a crise não explica tudo.
Enquanto professor, nunca me senti tão humilhado, insultado, vilipendiado na minha tarefa de Educador como neste ano. E já levo 27 anos de serviço, o que é uma vida!
À excepção daquela figura que é um farol de lusitaniedade, de nome Cronaldo (há quem lhe chame Cristiano, ou Ronaldo, mas eu, Ronaldo, só conheço aqueles dois brasileiros, com dentes grandes, o -inho e o outro), que até sabe dar uns pontapés na «chicha», o ano foi mau para todos. Ninguém foi comprado por 94 milhões! (por favor, comprem-me! faço um preço mais em conta, 50 milhões chegam-me!)
Façamos, então, um exercício de memória e puxemos a cassete atrás.
Este foi o ano da nova legislação da avaliação de desempenho, que, se algum benefício trouxe à carreira, foi ter conseguido juntar uma classe e encher as ruas de Lisboa (eu estive lá! das 2 vezes! ó pra mim, aqui na Praça do Comércio!)
De resto, o Decreto 2/2008 trouxe às escolas aquilo que a equipa ministerial pretendia e que muitos já previam: a divisão entre professores e o mal-estar daí decorrente. Cada um por si e a escola colaborativa acabou nesse instante. «Eu, mostrar-te a minha ficha? Para tu a copiares e colocares no teu portfolio? Faz mas é a tua...»
Professores contra professores, a bufaria e o beija mão a grassarem por tudo quanto é escola...
E que dizer dos colegas que, pressionados por um sistema cada vez mais burocrático e desfazado da realidade, começaram a pedir a reforma antecipada? Basta cada um de nós olhar em redor e ver quantos dos que estavam «connosco» no ano anterior já estão fora do sistema. E com penalizações de 30, 40, 50%...
A cereja no topo do bolo chamou-se Decreto Lei nº75/2008, o famoso 75 que «inventou» essa figura de Democracia Burocrática que é o director!
O novo modelo de gestão veio aumentar a cisão numa profissão que conseguira juntar quase a totalidade dos seus docentes, por duas vezes... Os Conselhos Gerais (anteriormente Transitórios), como herdeiros da anterior Assembleia, assimilaram todo o poder, mandando a escola representativa às malvas! «Ah, mas estão lá os pais, os professores, os pais, a comunidade...» Pois, está bem, abelha! Eu sei perfeitamente como esses Conselhos Gerais podem trabalhar, oh se sei... Basta 2 ou 3 elementos que sabem urdir a teia e, lentamente, vão apertando a malha, até a simples aplicação da livre escolha fica tolhida. «Pois, vê lá como votas, lembra-te do que te foi concedido!»
«Vae Victis», «ai dos vencidos»: ficam párias, excluídos, separados dos demais. Se tens cargos, obviamente destituo-te! Mas com «souplesse» e classe. E democraticamente...
Como disse o meu colega Bloguista Ramiro Marques (Boas Férias, Ramiro!), no seu ProfAvaliação:
«Os professores passaram a andar pelos cantos da escola, de rosto triste, a dizerem às escondidas aquilo que passou a ser proibido afirmar às claras. O medo instalou-se. Os aspirantes a tiranetes, fascistas, socialistas jacobinos, vira-casacas e lambe-botas deram as mãos e mergulharam as escolas numa espiral de loucura burocrática e desrespeito pelas leis e pelas pessoas.»
E acreditem que ainda a procissão vai no adro. A Avaliação Docente ainda agora saíu da Igreja. No meu Agrupamento, no último Pedagógico do ano, questionaram o Director sobre a Avaliação Docente:
- Ah, vão de férias, lá para Setembro concluímos isso!
Assim, tal e qual. Em Setembro! Quem vier atrás que feche a porta! Quando começarem a sair as avaliações, «então ele tem Excelente e eu só Muito Bom? Ele, que é um lambe botas?» E isto vai-se ouvir e repetir, vezes e vezes sem conta. Faz parte do clima que nos criaram.
Foi isto que esta verdadeira maga do Ensino que se chama Maria de Lurdes Rodrigues nos deixou, ao abrir a Caixa de Pandora em que se tornou a Educação do nosso país!
E eu, que sou um profissional atento, participativo, colaborativo, amigo, fico triste. Porque os professores já não têm pejo de apunhalar os colegas nas costas, porque é sempre um a menos a sair de cena. Ninguém quer ajudar ninguém, isto é o que constato. E só vai piorar!
E que dizer dos concursos? Tenho tantos colegas que esperavam, «este ano é que é, vou entrar quase de certeza, com tantas vagas...» Pois bem, algumas centenas, cerca de 4, para ser preciso, foram os felizardos que puderam entrar para os quadros. Quanto aos outros, transformaram-se numa nova «classe», os DACL.
Felizmente, alguma coisa boa surgiu. Ou irá surgir.Consta por aí que em Outubro esta gente toda vai levar um valente empurrão (para não utilizar outra figura de estilo!) e o Ministério da Educação terá uma verdadeira lufada de ar fresco. Alguém abriu uma porta «europeia»...
Assim espero. Assim esperamos!


